By the Way, havia um inglês no meio do caminho

17/12/2008

120 minutos de solidão…

Eu me sentia na OBRIGAÇÃO, afinal de contas, estava SENDO PAGA PARA ISSO de dar aula ATÉ O ÚLTIMO MINUTO e de que TODOS OS MINUTOS DA AULA FOSSEM PRODUTIVOS DE ALGUMA MANEIRA E REPRESENTASSEM CONHECIMENTO ADQUIRIDO COMPROVADO PELO MEC (ou por qualquer órgão renomado que quisesse comprová-los!)

Simples assim! Eu tinha que estar à altura do desafio (afinal, tinha enganado todo mundo no treinamento, chegado até as empresas e recebido meus primeiros salários, bem, tinha que dar meu jeito)

Gente, eu era INTRANSIGENTE em relação a isso.

Se falta um minuto, a aula não acabou…Se eu acabava a aula um minuto antes por entregar os pontos, desabava em um pote de sorvete de dois litros imaginando como não era uma profissional dedicada! Se percebia que as pessoas atrasavam o início ou adiantavam o fim das aulas – colegas de profissão – eu era tomada por um profundo ressentimento em relação ao futuro de nosso país nas mãos de profissionais como esses.

É, dramático assim mesmo!

Ou seja, eu era a mulher da carta na manga: em todo objeto ou comentário de meus alunos eu via uma forma de explicar gramática em potencial. A aluna dizia “By the way” (A propósito) e eu já pensava: “Você sabia que nevertheless, however, although, even though cumprem com funções parecidas?” e imediatamente relacionava à lição do livro que estava ensinando.

Eu sei, eu sei…Devia praticar yoga ou algo assim. Dá-lhe desespero!

Incapaz de ler as entrelinhas…

Esse meu defeito acabou virando uma qualidade em sala de aula e em treinamentos. Foi isso, misturado com a inocência total: eu não sabia que adaptar o conteúdo à realidade de cada aluno era difícil, não sabia que quando se diz “o mais importante é que o aluno aprenda”, na verdade, o que se quer dizer, muitas vezes, é “cumpra o calendário de lições a serem dadas em cada aula e não atrase!”. Eu definitivamente não sabia nada sobre limites profissionais do tipo “não comente sobre a sua vida”, “atenha-se a seu trabalho”. Tampouco entendia que quando um professor colega seu só tem vitórias a contar, pode ser que ele esteja simplesmente se protegendo e deixando de contar alguma coisas. Para mim (oh, Poliana!) é porque o cara era incrível mesmo!

Não é que eu esteja defendendo que não haja limites pessoais e profissionais (certamente, tive que rever os meus várias vezes e até hoje eu faço isso!), mas acho que, para começar, eu fui desarmada e isso foi bom.

Por não saber que adaptar o conteúdo à realidade do aluno era difícil, toda vez que um aluno dizia que tinha algo na empresa que não conseguia fazer eu transformava aquilo na minha matéria. Não era algo do tipo: “Hoje não tem aula porque eu vou te ajudar a escrever um e-mail pro chefe americano (ai, que chique!)”. Era mais uma coisa como: “Com certeza dá para explicar o verbo to be a partir desse e-mail e assim não me atraso e, ao mesmo tempo, ajudo”.

11/12/2008

Preposições: sempre merecem um capítulo à parte…

Outra tortura generalizada eram as preposições. Eu preferia formar frases sem preposições de nenhuma espécie, coisa que pode ser bem difícil. Eu sabia usar, vejam bem, só não sabia explicar quando usar e nem sabia usar sob pressão de continuar desempregada! Até que fui percebendo que havia uma espécie de etiqueta, misturada com código de honra, do treinamento para situações em que algum professor se enganasse com uma dessas coisas. O código dizia: “Generalize”. Um exemplo: Se você não tem certeza da utilização de alguma coisa e percebe que cometeu um erro, diga que “viu isso em algum lugar” ou “já vi sendo utilizado dessa maneira na televisão”. Vai ser difícil qualquer pessoa, a não ser um nativo da língua, dizer: “Não você nunca ouviu isso!”. Outra forma de escapar era dizer: “Informalmente se usa assim” ou “Ouvi em uma música, sabe como é, licença poética!” Havia ainda o clássico: “essa forma é pouco usada, mais existe”. Tudo isso para não dizer: “Eu não sei, como é que é mesmo?”.

Devo dizer que, em anos de treinamentos, como candidata ou como coordenadora, ouvi no máximo cinco vezes alguém dizer que não sabia alguma coisa. Devo dizer também que, nesses raríssimos episódios, dos quais me lembro bem, observava uma reação parecida por parte dos demais professores – alguns aproveitavam a oportunidade para demonstrar que sabiam e ganhar pontos, outros olhavam com cara de espanto como a dizer: “E pode admitir que não sabe?”.

Claro que tudo isso pode ser só minha forma de ver as coisas, baseada na minha própria insegurança, mas como sou eu quem está escrevendo o blog… Depois vocês me dão retorno disso.

Até quando aprendemos uma determinada coisa? Existe limite?

No tal treinamento, então, eu percebi que certas coisas não saiam fáceis para mim. Ocorreu-me, não estando totalmente retardada com a situação, que eu não havia aprendido inteiramente essas coisas. A questão do presente e do “s” na terceira pessoa era uma delas. O uso do passado irregular era outra. Eu reparava que os professores se gabavam de saber listas e listas de passados irregulares. E morria de medo de esquecer! Procurava não construir frases com esses passados, para não correr o risco de errar. Aliás, gastava muito mais energia não falando do que falando. Antes de cada frase, pensava um milhão de vezes. Cheguei a ensaiar frases em casa e sonhar com elas. Era comum que um professor dissesse que o passado de think (pensar) é thought e em seguida completasse com bring/brought, fight/fought para ilustrar seu conhecimento de causa, forma totalmente legítima de demonstrar-se digno de contratação, mas que me fazia pensar: Caraca, eu não sei o passado de todos os verbos! Assim pra sair falando eu não sei!

Há mais coisas entre o “do” e o “does” do que supõe nossa vã gramática…

Por que era assustador? Tudo começou no treinamento. O treinamento que na verdade era um teste para ver se nos adequávamos à metodologia. Aquela coordenadora falando com uma fluência invejável e mostrando que livros usar para que períodos, falando de abordagem comunicativa, mandando a gente ler um monte de coisas. Eu precisava de toda a minha concentração e mais um pouco na hora de falar. Morria de medo de falar alguma coisa errada em inglês! E se eu errasse uma preposição? E se trocasse o “do” pelo “does”? Vocês não têm idéia do que é passar pelo primeiro treinamento, ouvir falar de abordagens pedagógicas, sendo que a única coisa que você consegue ter em mente é: “Lembra que na terceira pessoa se usa does… lembra que tem “s” no final do verbo… Lembra que na terceira pessoa se usa does…” Eu ouvia os outros professores falando e morria de vergonha de falar também. Todos pareciam saber falar inglês melhor do que eu e, quando por acaso alguém cometia um erro, era quase palpável o sentimento generalizado de: “Esse aí não vai entrar não!”. E eu pensando: “Preciso do dinheiro… concentre-se, Sabine… na terceira pessoa se usa does”. Vocês não têm idéia da tortura que era.

Como na maioria dos treinamentos por que passei, era um processo de seleção no qual se passava o básico do que se esperava do professor em sala de aula, pedia-se para que o candidato preparasse uma aula e apresentasse e, de acordo com o resultado e a participação ao longo do treinamento, selecionavam-se os mais aptos. Tudo isso em três ou quatro dias. Eu não aprendi muito sobre abordagem comunicativa naquele treinamento. Saí de lá com a vaga noção de que abordagem comunicativa era não ser tradicional, não ficar preso a quadro e exercícios de complete e fazer com que o aluno falasse bastante. Procurar montar situações nas quais o aluno tivesse de falar, situações interessantes. Mas eu sabia tão pouco sobre metodologia que, no final das contas, isso podia ser simplesmente o que eu queria ouvir.

O mais importante a resgatar para mim, no entanto, é essa tortura de falar inglês como uma profissional do inglês. Tudo ajudando a reforçar a visão de que professor não erra nunca, professor sabe tudo sobre gramática. Vocês podem estar pensando: “mas, pelo amor de Deus, essa coisa de terceira pessoa é super básica, não tem como você errar isso!”. Devem estar imaginando que eu não tinha fluência alguma, como assim?

Bem, estão em seu direito de imaginar.

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