By the Way, havia um inglês no meio do caminho

06/03/2009

Confissões de uma mente repetitiva…

Filed under: aprender,língua inglesa,modelos de vida — sabinemendesmoura @ 01:10
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Como quem acompanha meu blog bem sabe, não comecei a dar aulas por sonhar com isso desde criancinha. Se bem que há controvérsias, uma vez que, consultando minha mãe, ela garante que se lembra de mim dizendo que queria ser professora e dando aulas para bonecas enfastiadas. Mas que menina nunca fez isso?

No entanto, o trabalho para mim sempre foi tido em alta conta. Ou seja, jamais trabalharia em um local onde acreditasse estar fazendo algo contraproducente, meramente lucrativo ou imoral. Por exemplo, jamais seria uma fabricante de plástico-bolha que nos leva à loucura querendo apertar as bolhinhas uma a uma!

Brincadeirinha! 🙂

O que eu quero dizer é que a metodologia audiolingual e toda aquela repetição pareciam-me uma evolução comparando-as aos cursos de onde vinha antes onde, talvez por total incompetência minha, eu quase não observara treinamento ou foco metodológico algum.

Eu acreditava no método baseado em repetição ou não teria podido trabalhar com ele.

Nota de Imprensa: Não quero cuspir no prato que comi.

Espero sinceramente que aqueles que defendem o método audiolingual e suas variações perdoem-me por meu ponto de vista particular, pessoal e intransferível. Gostaria de dizer que, ao longo dos tempos, venho cada vez menos endemonizando métodos, metodologias e abordagens e percebendo que, sem atenção ao que há de humano no aluno ou aluna que você tenta atingir, não há como ensinar nada. Também percebi depois de onze anos, que a mescla de abordagens de acordo com cada contexto é quase sempre a forma mais eficiente de ensinar.

Respirem fundo e não se esqueçam: eu aprendi assim, repetindo! Não cuspo no prato que comi, tampouco creio que seja a melhor maneira de aprender.

Em seguida, voltaremos a nossa programação normal…

21/12/2008

Estudo de Caso: Mestre do Entretenimento I

Características Básicas da “Aula-show”:
– são perfeitas.
– são perfeitas.
– demonstram o conhecimento superior que o professor tem em relação ao ponto gramatical a ser apresentado.
– são rápidas e cheias de tiradas de efeito (se você é professor e está em treinamento, fica tentando acompanhar os movimentos ilusionistas de quem expôe e tem certeza de que nunca conseguirá reproduzi-los. Se você é aluno e te dão uma aula dessas, você não consegue acompanhar os movimentos, mas sabe que o cara é o Professor!).
– te expôem: dentre as tiradas de efeito há sempre algumas que servem para te desestabilizar de forma que você não consiga responder e o Professor possa te apontar e rir da sua incompetência, alinhavando o bom “relacionamento” que tem contigo te dando um tapinha nas costas e dizendo “Você chega lá!” que, na verdade, pode ser traduzido como “Eu sei, eu sei que eu sou incrível, fazer o quê?”.
– Truques utilizados para expor e te manter “no-seu-lugar-pequenininho-de-espectador”: trava-línguas; piadas em relação à sua vida pessoal que só o Professor tem vocabulário para entender (nesse caso, ele ri de você sem você saber de que exatamente ele está rindo); citações de pessoas famosas que ninguém na sala conhece (??) e que provavelmente o Professor também não conhecia há bem pouco tempo; explicações teóricas lindas e que fazem tudo parecer muito fácil, mas que o Professor não se preocupa em saber se você vai conseguir colocar em prática (´”É só praticar em casa!”, geralmente acompanha tais exposições).
– Regra Número Um: Você é o único responsável pelo seu aprendizado. O Professor nunca se compromete com você (até porque só se compromete com pessoas “do seu nível”).

Sim, senhores, temos que rir!

“Aula show” ou “There´s no people like show people”

Traduzindo: “Não há ninguém que seja como as pessoas do show business” (em inglês fica bem melhor!). Aceito teclas SAP mais eficientes!

Logo depois de começar a traçar as mais básicas estratégias de sobrevivência em sala de aula, comecei a ficar atenta às tendências por trás da metodologia de cada lugar. A principal delas – guiada por um ser iluminado, faceiro e dotado de eterno bom-humor e perspicácia fora do comum – era a clássica “aula-show”.

Vejam bem: para ser o elaborador de uma “aula-show” não bastava saber inglês, conhecer bem os alunos, dedicar-se horas a fio ao planejamento de aulas. A “aula-show” era quase um Dom Divino: ou você nasce na conjunção astral favorável ou jamais será capaz de alcançá-la.

Piadas excessivas à parte, havia um modelo mítico de professor que eu e meus colegas sabíamos que nunca chegaríamos ser, mas que não era simplesmente um cara entusiasmado e esforçado: era praticamente um MC ou performer a la Diva do Pop. Tiradas interessantes, risinhos oblíquos, provas constantes de que sabia mais do que o aluno (e do que a maioria de seus colegas professores), superioridade à toda prova!

E, a distante promessa, de que um dia você – quando seu Destino clareasse, os céus de abrissem e a revelação o atingisse como um raio – pudesse ser igual a ele!

19/12/2008

Não suspirem mais, damas…

No ensino médio, tive uma amiga extremamente culta. Na verdade, éramos um trio que compartilhava saberes/lanches sob a escada do pátio do recreio. Ainda mais próxima da verdade, uma de minhas maiores utilidades no grupo era “servir como rádio”. Como eu cantava – e quando isso acontecia ninguém saía correndo – era costume chamar-me para pedir músicas em inglês (Canta aquela, canta aquela assim assado!) e eu gostava do papel. No mais, cumpria a função de pessoa embasbacada que ouvia tudo o que elas tinham a dizer.

Essa minha amiga – que posteriormente formou-se em Medicina e foi morar em outra cidade (Saudades!) – lia Freud no original, conhecia Kafka, era versada em temas diversos – dos quais não me lembro bem porque, provavelmente, estavam além da minha capacidade de compreensão naquela época – e foi a primeira pessoa a chamar minha atenção em relação a Shakespeare.

Foi ela quem me levou a assistir o filme baseado em sua peça “Muito Barulho por Nada”. Cantávamos pelos corredores do ensino médio: “Sight no more, ladies, sight no more… Men were deceivers ever”/ “Não suspirem mais, damas, não suspirem mais…Os homens sempre foram enganadores”.

E essa realidade estava materializando-se novamente em forma de aula de Literatura I do curso de formação de professores. Foi quando percebi o quanto havia de “aula de Literatura” em todos os filmes, textos, piadas, músicas e citações de que eu tanto gostava.

Stop all the clocks! – Parem todos os relógios!

“Parem todos os relógios!”, dizia W.H. Auden. Quando eu tinha treze anos e sonhava com Hollywood, um filme foi lançado e concorreu ao prêmio máximo da Academia de Cinema americana, cuja cópia (em VHS) eu possuía e colocava para rodar vários dias de manhã, enquanto vestia meu uniforme para ir à escola. Algumas pessoas ouvem música, eu ouvia filmes que até hoje sei de cor. Neste filme, em especial, um ator declamava o poema de Auden cuja frase surrupiei para dar um colorido à postagem, durante o funeral de seu namorado.

Quero usá-la aqui de maneira menos fúnebre: “Parem todos os relógios!” ou “Impeçam o cachorro de latir!” era a exata sensação que eu registrava durante minhas aulas de Literatura I.

Detalhe: a professora usava a Internet! Ela buscava textos extras, biografias, fotos e, em um dia super especial, buscou uma gravação do próprio Robert Frost declamando o poema das estradas (The Road Not Taken, 1920).

“…” é tudo o que posso dizer em relação ao que senti ouvindo aquele poema ser declamado pelo próprio autor com sua voz poderosa, pausas perfeitas, dramaticidade ímpar…

Duas estradas divergiam em um bosque…

Lembram-se de como a história começou? De como ensinar inglês representava um profundo conflito ideológico para uma menina de dezessete anos que ouviu dizer que os americanos eram o Lado Negro da Força? Como posso eu – que quero mudar o mundo – ser professora de inglês? How can I?

Foi no primeiro curso de treinamento de professores que fiz, anteriormente mencionado como vitória do marketing ativo, que comecei a ter motivos para ter orgulho do que estava ensinando. Para completar o curso eu tinha que fazer um mini-módulo de Língua Escrita com prática em diferentes gêneros textuais em inglês, dois módulos de Didática e dois módulos de uma das coisas mais fascinantes que já estudei em toda a minha vida: Literatura. Um módulo de Literatura Inglesa e um de Literatura Americana.

Foi quando conheci, ainda que de longe, caras interessantes como W.H Auden, Robert Frost, Billy Shakes (que é como meu irmão, também professor, chama William Shakespeare), Jane Austen… Como diria Frost, “two roads diverged in a wood”/ “duas estradas divergiam em um bosque”… Numa delas, eu ensinava a língua do mercado de trabalho, amava o Halloween e comemorava o Dia dos Namorados em quatorze de fevereiro… Na outra estrada, eu me aprofundava em diferenças culturais, era a professora da língua de Shakespeare, traçava paralelos entre a Literatura Brasileira e a Literatura de Língua Inglesa. Enfim, nessa segunda opção, eu era um ser profundo, uma educadora.

Foi quando comecei a reconciliar-me com minha profissão. Não existia Lado Negro ou Branco, somente pessoas (pessoas incríveis) expressando-se em diferentes idiomas! Eu simplesmente não conseguia parar nos textos do livro oficial: comecei a descobrir as irmãs Brontë, os clássicos de seis reais da famosa coleção de capa creme, os livros perdidos nos sebos a um real e Literatura mostrou-me, atenciosamente, o que havia de maravilhoso por trás de saber uma outra língua.

“Duas estradas divergiam em um boque e eu, eu segui a que era menos usada, e isso fez toda diferença…”

18/12/2008

Nada como um “caso de sucesso” para te fazer rever conceitos…

Como foi que eu abandonei definitivamente meus pré-conceitos em relação à Internet?

Lembram do Movimento Humanista? Eu seguia participando! Um dia, numa reunião nossa, fiquei sabendo que, através da Internet, humanistas da América Latina tinham organizado equipes de ativistas na Europa e na Ásia.

Pensei: “Opa! Está na hora de rever meus conceitos!”

E assim foi… Usando para mandar e-mails só depois da meia-noite (quando era mais barato e “banda larga” era uma expressão associável somente à piadas machistas e, portanto, de mau gosto). Indo à casa de amigos que tinham Internet e começando a usar os antigos comunicadores instantâneos (até que eles me expulsassem dizendo que também queriam usar e/ou estava ficando muito caro). Curtindo testar o meu inglês com estrangeiros e nativos que também falavam inglês. Curtindo o fato de que saber inglês me permitia falar com os países mais exóticos (aos treze anos, eu paguei três dólares para um serviço de correspondência que te enviava endereços internacionais de pessoas que estavam a fim de trocar cartas…Têm noção do que eu sentia vendo quão mais rápido podia ser?! Ah, detalhe: era super lento para os padrões atuais!).

E, é claro, ouvindo um americano perguntar se havia índios no Rio de Janeiro, via comunicador instantâneo, e se eles se locomoviam usando cipós pela cidade. Além do clássico: “Buenos Aires é a capital do Rio” (sim, ninguém me contou, eu realmente passei por isso).

Fazendo fogo na base do palitinho…

O título busca prever a reação de professores que já chegaram ao mercado de trabalho com a net por aí, “bombando”, ao lerem esta postagem…

Era assim minha gente (citarei um monte de coisas que eu ainda faço/considero hoje, por gosto, hábito e porque são realmente interessantes, mas que, naquela época pré-internet, eram QUESTÃO DE SOBREVIVÊNCIA):
– O livro era a sua única certeza na vida.
– Garimpar em sebos era uma de minhas principais atividades ( um dos meus momentos mais felizes, durante os primeiros meses de profissão, foi quando encontrei uma gramática super bem cotada entre os professores por quinze reais em um sebo – edição antiga).
– Revistas em inglês, CDs com atividades, CD-roms eram bens valiosíssimos (o conceito de “CD virgem” era algo abstrato, porque mesmo que existissem, não havia gravadores de Cd dando sopa por aí e, a propósito, onde é que você encontraria coisas para gravar neles mesmo, hein?).
– Um curso com biblioteca, videoteca (é, isso é pré-DVD também!) e brinquedoteca em inglês era o supra-sumo, o paraíso, nirvana, etc.
– Ter vídeos sem legenda era o auge, marca de status dentre os membros da classe.
– Contatos com pessoas que viajassem para os Estados Unidos e a Inglaterra e pudessem trazer souvenirs eram considerados moeda de troca. Viagens eram anunciadas em salas de professores em tom de “grande oportunidade/saldão”. Quem não tinha dinheiro para fazer encomendas (eu, por exemplo) tinha que contentar-se com tickets de metrô, mapas, revistas de avião, qualquer coisa que pudesse ser adjetivada como “original”.
– Os alunos paravam tudo o que estivessem fazendo (como, por exemplo, não prestar atenção na aula!) quando o professor trazia esse tipo de material “original” com comentários do tipo “Essa revista é de lá mesmo?”
– Falar com um “falante nativo” causava pânico, euforia, todo um mix de sentimentos/sensações normalmente associados à paixão ou ao enfarto fulminante.
– Gastos com telefone, ao começar na profissão, ainda mais em um contexto de aulas particulares, faziam com que seu salário fosse reduzido pela metade.

Estão entendendo? Eu poderia ficar escrevendo horas…

Recordações (propriamente ditas) de uma era pré-internet

Qualquer professor que esteja na praça há pelo menos dez ou quinze anos (ou mais) sabe porque esse assunto é relevante! Por isso, postarei um pouco acerca do tema.

Eu comecei a usar a palavra computador (sem estar me referindo às histórias de Natal de meu avô em que ele contava como marcava placas de metal para alimentar máquinas do tamanho de uma sala), durante a faculdade (1997-1999).

Comecei a usar a palavra internet em discursos alarmados em que discutia como o computador (através da anteriormente mencionada net) sugaria a alma (tal qual zumbi comedor de cérebros) de todos aqueles que dele se aproximassem com um objetivo maior do que usar o editor de textos. Minha defesa da tese (batida!) “o computador acaba com a humanidade em nós” era algo conhecido por todos, bem como meu relacionamento íntimo com artefatos pré-históricos como: canetas de variadas cores e formas, cadernos, máquinas de escrever, etc. (Lembrança mais antiga: eu, aos nove anos, sentada diante de uma máquina de escrever, sem conseguir completar uma folha, pois não sabia usá-la. Florestas inteiras morreram antes de que eu desenvolvesse qualquer consciência ecológica!)

É por essas e outras, minha gente, que quando eu vejo, ainda hoje, certos discursos inflamados endemonizando a net eu paro, sorrio e me identifico. Temos uma expressão em inglês: “Been there, done that” (algo como “Já estive lá, já fiz isso”, equivalente ao nosso “Sei bem o que é isso”).

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