By the Way, havia um inglês no meio do caminho

21/12/2008

Estudo de Caso: Mestre do Entretenimento I

Características Básicas da “Aula-show”:
– são perfeitas.
– são perfeitas.
– demonstram o conhecimento superior que o professor tem em relação ao ponto gramatical a ser apresentado.
– são rápidas e cheias de tiradas de efeito (se você é professor e está em treinamento, fica tentando acompanhar os movimentos ilusionistas de quem expôe e tem certeza de que nunca conseguirá reproduzi-los. Se você é aluno e te dão uma aula dessas, você não consegue acompanhar os movimentos, mas sabe que o cara é o Professor!).
– te expôem: dentre as tiradas de efeito há sempre algumas que servem para te desestabilizar de forma que você não consiga responder e o Professor possa te apontar e rir da sua incompetência, alinhavando o bom “relacionamento” que tem contigo te dando um tapinha nas costas e dizendo “Você chega lá!” que, na verdade, pode ser traduzido como “Eu sei, eu sei que eu sou incrível, fazer o quê?”.
– Truques utilizados para expor e te manter “no-seu-lugar-pequenininho-de-espectador”: trava-línguas; piadas em relação à sua vida pessoal que só o Professor tem vocabulário para entender (nesse caso, ele ri de você sem você saber de que exatamente ele está rindo); citações de pessoas famosas que ninguém na sala conhece (??) e que provavelmente o Professor também não conhecia há bem pouco tempo; explicações teóricas lindas e que fazem tudo parecer muito fácil, mas que o Professor não se preocupa em saber se você vai conseguir colocar em prática (´”É só praticar em casa!”, geralmente acompanha tais exposições).
– Regra Número Um: Você é o único responsável pelo seu aprendizado. O Professor nunca se compromete com você (até porque só se compromete com pessoas “do seu nível”).

Sim, senhores, temos que rir!

“Aula show” ou “There´s no people like show people”

Traduzindo: “Não há ninguém que seja como as pessoas do show business” (em inglês fica bem melhor!). Aceito teclas SAP mais eficientes!

Logo depois de começar a traçar as mais básicas estratégias de sobrevivência em sala de aula, comecei a ficar atenta às tendências por trás da metodologia de cada lugar. A principal delas – guiada por um ser iluminado, faceiro e dotado de eterno bom-humor e perspicácia fora do comum – era a clássica “aula-show”.

Vejam bem: para ser o elaborador de uma “aula-show” não bastava saber inglês, conhecer bem os alunos, dedicar-se horas a fio ao planejamento de aulas. A “aula-show” era quase um Dom Divino: ou você nasce na conjunção astral favorável ou jamais será capaz de alcançá-la.

Piadas excessivas à parte, havia um modelo mítico de professor que eu e meus colegas sabíamos que nunca chegaríamos ser, mas que não era simplesmente um cara entusiasmado e esforçado: era praticamente um MC ou performer a la Diva do Pop. Tiradas interessantes, risinhos oblíquos, provas constantes de que sabia mais do que o aluno (e do que a maioria de seus colegas professores), superioridade à toda prova!

E, a distante promessa, de que um dia você – quando seu Destino clareasse, os céus de abrissem e a revelação o atingisse como um raio – pudesse ser igual a ele!

19/12/2008

NTSC – Never the Same Color ou Nunca a Mesma Cor

Estudando cinema e vídeo, ouvi de um professor uma piada interna do metiê – daquelas que só têm graça para quem lida com isso o dia inteiro -que dizia isso aí que está no título (sei que devem estar sofrendo convulsões de tanto rir!): brincava com a instabilidade cromática do sistema NTSC na época em que era relevante saber que o sistema brasileiro era PAL-M, entre outras siglas, com certeza todas acompanhadas por suas respectivas piadas em inglês.

Já que eu falei um pouco sobre a era pré-Internet, não posso de maneira alguma deixar passar a digressão da era pré-DVD em sala de aula.

Alguém aqui já alugou um filme com legendas em português e tentou improvisar um tampão com folhas da secretaria do curso e pedaços de fita adesiva, tentando cobrir as tais legendas, e descobrindo que dava para ler através do papel?

Alguém já insistiu nesse esquema, em versão 2.0, mediante a compra de cartolina preta, somente para descobrir que a fita adesiva não segurava a cartolina na base da Tv da sala de aula?

Alguém já deu aula segurando um pedaço de cartolina diante das legendas, pensando seriamente em processo por insalubridade dada a dor nas juntas por estar uma hora e meia parado na mesma posição?

Alguém já desistiu de tudo isso e ignorou a possível proibição de uso de língua portuguesa em sala de aula, transformando os próprios erros/reduções da legendagem na prática de compreensão auditiva do dia?

16/12/2008

Nota em DNO (Diário Não-Oficial)

Gostaria de pedir desculpas a todos os alunos e alunas com quem alguma vez eu já tenha usado a estratégia do “envilecida” (ver post anterior). Eu sei que era golpe baixo, que não tem desculpa, porém gostaria que soubessem que doeu mais em mim do que eu vocês.

Caso você, que está me lendo agora, seja um desses alunos, somente posso dizer que realmente sinto muito e que a tal estratégia era algo envilecido por meus problemas egóicos (???).

Resumindo: tava morrendo de medo de ter que dar aula para vocês!!!

Pronto, eu disse.

“Envilecida”: redações escolares servem SIM para alguma coisa!

O ministério da saúde adverte: A estratégia a seguir foi bolada por uma menina insegura de 19 anos que tinha que dar aula para “alunos-que-testam” que, muitas vezes, tinham o dobro de sua idade.

Quando eu estava na oitava série, fiz uma redação sobre os retirantes (baseada em uma foto que a professora apresentou). Tinha acabado de descobrir uma palavra nova em português – envilecida – e queria estreá-la em texto próprio. Pois bem, minha redação teve nota máxima, mas gerou um comentário (um circular de caneta vermelha) quanto à palavra envilecida, que foi corrigida para envelhecida. Certa do equívoco e munida de dicionário, apresento à professora a palavra nova e fico toda boba por conhecer vocabulário que ela desconhecia. Ganho muitos elogios e ganho o mês!!!

Sei, sei, metida a besta eu!

E o que isso tem a ver com provar minha competência dando aulas de inglês? Simples – toda vez que um aluno me testava, perguntando uma palavra que eu não soubesse em inglês, eu travava o seguinte diálogo/batalha de egos:
(eu) Você é fluente em Português?
(aluno-que-testa) Sim, claro!
(eu) Sabe o que quer dizer “envilecida”?
(aluno-que-testa/ 3 variações de resposta) “Você não quer dizer envelhecida?” ou “Sei, sei…quer dizer (aqui ele dizia uma coisa qualquer)” ou “Humm, bem, não sei…”
(eu) Quer dizer “tornada vil”. Portanto, você é fluente em português e nem por isso sabe todas as palavras e eu sou fluente em inglês e nem por isso sei todas as palavras. Mas eu sou fluente em inglês e você não é, por isso, deixa eu te ajudar”.
Xeque-mate.

O nível de crueldade/requinte/avacalhação dependia muito do nível de crueldade/requinte/avacalhação do aluno-que-testa.

Eu sei, gente…Mas foi o que deu pra inventar na época…

O aluno que queria ser rei

Eis que somaram-se aos meus grupos membros de outras empresas, alunos particulares…Para cada um deles eu recebi um papelzinho que era como um “encaminhamento”. O encaminhamento continha os dados dos alunos, endereço e nível (busque o livro de acordo com o nível) e era uma espécie de talismã também! Eu tinha 19 anos -colava aqueles encaminhamentos em uma agenda como se fossem condecorações militares!!! Consegui mais um aluno…Era o máximo!
Até que um dia, numa bela manhã de não lembro quando, encontrei o primeiro aluno “do tipo que testa”. Um aluno do tipo “você tem dezenove anos, como assim está querendo me ensinar alguma coisa?”. Eu senti na pele a tensão – tive ganas de me livrar do encaminhamento dele, quem sabe jogando numa fogueira! – e não consegui dar nenhuma resposta adequada durante nossa primeira aula.
Porém, para toda situação incômoda, logo desenvolvemos uma estratégia…Ainda mais se o prêmio é a permanência no mercado de trabalho!
E eu desenvolvi a estratégia do “envilecida”.
Na próxima, juro que conto.

Dar aula é ter aula…

Meu primeiro grupo no curso sofisticado foi um “grupo de empresa”. Nomes técnicos para cursos que se especializam em aulas para executivos e trabalhadores em geral: “grupo de empresa”/ “grupo particular” (hein?). Esse primeiro grupo era de jornal, um jornal famoso. Sabe o que eu pensava? “Como é que eu vou dar aula para gente que tem uma profissão de verdade, meu Deus! Afinal de contas, essas pessoas escrevem um jornal!!! Tá entendendo?”

Primeiro dia de aula: não sei o que eles aprenderam comigo, mas sei o que aprendi com eles. Aprendi que “profissionais bem-sucedidos” (era assim que eu os catalogava mentalmente na época) podem ser simpáticos e são seres humanos como eu, como você, como nós “meros mortais”.

Ou seja, foi uma experiência de catalogação científica em que a categoria “profissionais bem-sucedidos” passou a estar contida na categoria “seres humanos” que já continha a categoria “meros mortais”.

PS para os mais “sensíveis”: sim, eu sei que categorizar pessoas é “o erro”, mas é como no caso do livro que a gente pegou emprestado e não devolveu (ninguém admite, mas todo mundo já fez isso em algum momento).

11/12/2008

“Eles levam isso à sério mesmo!”

O olhar dos outros foi fundamental no meu processo de construção como professora de inglês. Eu não parava de pensar: Essas pessoas levam isso mesmo a sério! Existe técnica para isso! Não dá pra fazer com boa vontade não, tem que saber como fazer! E sentia-me dividida entre o alívio de encontrar-me entre pessoas que achavam minha habilidade lingüística (capitalista ou não!) algo útil e digno de salário (ainda que mísero!) e o medo de estar me afundando no Lado Negro da força, prestes a me tornar uma especialista em algo politicamente incorreto.

Eu passei em um dos treinamentos. Só fui saber quanto ganharia depois de toda a tortura. Não era mal para uma iniciante. Sem carteira assinada, sem benefícios, sem nada. Mas não era de todo mal! Logo, o segundo curso me chamou, também um curso para executivos, o chamado business english. Nesse curso, não houve treinamento. Só uma conversa, apresentação dos livros e lá fui eu dar aula. Era um curso menor e menos glamouroso. Tudo mais prático. Negociação de salário na hora, se não gostar pode ir embora.

Estava pronta para os alunos (ou não). É, mais para “ou não”. Mas deixem-me rememorar a doce inocência de quem começa achando que sabe de tudo…

Inglês: Noivado e Casamento

Foi durante os treinamentos em diferentes cursos de idiomas que eu percebi minha relação com o inglês mudando pela primeira vez. Era um ponto em meu casamento com o idioma em que me descubro vivendo com um desconhecido. “Você já não é mais o que era antes!”. Na verdade, talvez a melhor analogia seja a de ter filhos. Não éramos só eu e o inglês curtindo falar mal das legendas, ouvir músicas ou imitar sotaque. Passamos pela fase em que os vizinhos dizem “esse seu marido não presta!”, quando eu mentia, dizia que gostava de outras coisas, na faculdade e tinha vergonha do inglês. Vencemos o distanciamento e agora tínhamos de produzir uma coisa nova: uma aula. Por um lado, o inglês tornou-se completamente diferente na minha cabeça, algo a ser categorizado, listado, acumulado, organizado em frases de acordo com o nível de dificuldade… Por outro lado, começou a mostrar-se através dos livros, das publicações, dos filmes como material de trabalho. A coleção de livros e materiais extras, por sinal, era apresentada com grande pompa no treinamento, quase como se fossem livros de auto-ajuda “Aprenda a lidar com seu parceiro”, porque eu não me via (jamais!) dando aula sem um livro para me dizer a ordem das coisas. Conhecendo a complexidade das listas gramaticais a serem seguidas (no básico se ensina isso e, no intermediário, aquilo outro), eu senti vergonha da minha inocência no curso comunitário, achando que eu ia ensinando assim com fotocópias, com música, com materiais que tivesse à mão, sem ter uma organização para me amparar. Sentia-me, no entanto, sortuda por ter tido uma experiência como professora, por mínima que fosse, na qual eu me sentia relaxada para testar o que quisesse. Acho que todo professor deveria ter direito de encontrar um lugar para tentar antes de decidir. E o clima de pressão é tão grande nos cursinhos que, muitas vezes, isso não é possível.

Preposições: sempre merecem um capítulo à parte…

Outra tortura generalizada eram as preposições. Eu preferia formar frases sem preposições de nenhuma espécie, coisa que pode ser bem difícil. Eu sabia usar, vejam bem, só não sabia explicar quando usar e nem sabia usar sob pressão de continuar desempregada! Até que fui percebendo que havia uma espécie de etiqueta, misturada com código de honra, do treinamento para situações em que algum professor se enganasse com uma dessas coisas. O código dizia: “Generalize”. Um exemplo: Se você não tem certeza da utilização de alguma coisa e percebe que cometeu um erro, diga que “viu isso em algum lugar” ou “já vi sendo utilizado dessa maneira na televisão”. Vai ser difícil qualquer pessoa, a não ser um nativo da língua, dizer: “Não você nunca ouviu isso!”. Outra forma de escapar era dizer: “Informalmente se usa assim” ou “Ouvi em uma música, sabe como é, licença poética!” Havia ainda o clássico: “essa forma é pouco usada, mais existe”. Tudo isso para não dizer: “Eu não sei, como é que é mesmo?”.

Devo dizer que, em anos de treinamentos, como candidata ou como coordenadora, ouvi no máximo cinco vezes alguém dizer que não sabia alguma coisa. Devo dizer também que, nesses raríssimos episódios, dos quais me lembro bem, observava uma reação parecida por parte dos demais professores – alguns aproveitavam a oportunidade para demonstrar que sabiam e ganhar pontos, outros olhavam com cara de espanto como a dizer: “E pode admitir que não sabe?”.

Claro que tudo isso pode ser só minha forma de ver as coisas, baseada na minha própria insegurança, mas como sou eu quem está escrevendo o blog… Depois vocês me dão retorno disso.

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