By the Way, havia um inglês no meio do caminho

16/12/2008

Nota em DNO (Diário Não-Oficial)

Gostaria de pedir desculpas a todos os alunos e alunas com quem alguma vez eu já tenha usado a estratégia do “envilecida” (ver post anterior). Eu sei que era golpe baixo, que não tem desculpa, porém gostaria que soubessem que doeu mais em mim do que eu vocês.

Caso você, que está me lendo agora, seja um desses alunos, somente posso dizer que realmente sinto muito e que a tal estratégia era algo envilecido por meus problemas egóicos (???).

Resumindo: tava morrendo de medo de ter que dar aula para vocês!!!

Pronto, eu disse.

11/12/2008

Não é que eu não fosse fluente…

Filed under: aprender,língua inglesa,Mercado de Trabalho — sabinemendesmoura @ 02:02
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Não era bem isso, não! Neste ponto, aprendi uma outra lição importante, parecida com a da “moeda” na minha viagem: uma coisa é saber falar inglês e outra coisa é falar inglês para ensina-lo. Cada vez mais, eu me convencia de que, a cada situação nova que surgia na qual eu tinha de falar o idioma, eu tinha de reorganizar meus papéis, me reinventar e nesse processo ficava meio atordoada, já que era tudo tão novo. Nessas horas (era minha primeira experiência profissional!) o vocabulário vai embora. Some. Porque não basta aprender a palavra e o que ela significa, é preciso reaprender a palavra cada vez que temos de utiliza-la em um novo contexto. Claro que isso foi ficando muito mais rápido com o passar dos anos! O que não quer dizer que, até hoje, eu não sinta um frio na barriga antes de uma experiência nova e precise de um tempo para me ambientar, me acalmar, quando vou usar o inglês em um contexto diferente. Cada novo contexto, uma nova insegurança: a primeira vez como professora em treinamento, a primeira vez como professora dando aula, a primeira vez em cada curso novo, com cada grupo de pessoas, na sala da pós-graduação… A primeira vez falando com um americano de verdade… Lembro-me de ter me sentido assustada quando fui dar um treinamento pela primeira vez em inglês porque pensava: “Meu Deus, eu cheguei ao ponto em que meu inglês é referência para alguém! E se eu erro?” Mas, sinto que voltaremos a isso, mais adiante.

Há mais coisas entre o “do” e o “does” do que supõe nossa vã gramática…

Por que era assustador? Tudo começou no treinamento. O treinamento que na verdade era um teste para ver se nos adequávamos à metodologia. Aquela coordenadora falando com uma fluência invejável e mostrando que livros usar para que períodos, falando de abordagem comunicativa, mandando a gente ler um monte de coisas. Eu precisava de toda a minha concentração e mais um pouco na hora de falar. Morria de medo de falar alguma coisa errada em inglês! E se eu errasse uma preposição? E se trocasse o “do” pelo “does”? Vocês não têm idéia do que é passar pelo primeiro treinamento, ouvir falar de abordagens pedagógicas, sendo que a única coisa que você consegue ter em mente é: “Lembra que na terceira pessoa se usa does… lembra que tem “s” no final do verbo… Lembra que na terceira pessoa se usa does…” Eu ouvia os outros professores falando e morria de vergonha de falar também. Todos pareciam saber falar inglês melhor do que eu e, quando por acaso alguém cometia um erro, era quase palpável o sentimento generalizado de: “Esse aí não vai entrar não!”. E eu pensando: “Preciso do dinheiro… concentre-se, Sabine… na terceira pessoa se usa does”. Vocês não têm idéia da tortura que era.

Como na maioria dos treinamentos por que passei, era um processo de seleção no qual se passava o básico do que se esperava do professor em sala de aula, pedia-se para que o candidato preparasse uma aula e apresentasse e, de acordo com o resultado e a participação ao longo do treinamento, selecionavam-se os mais aptos. Tudo isso em três ou quatro dias. Eu não aprendi muito sobre abordagem comunicativa naquele treinamento. Saí de lá com a vaga noção de que abordagem comunicativa era não ser tradicional, não ficar preso a quadro e exercícios de complete e fazer com que o aluno falasse bastante. Procurar montar situações nas quais o aluno tivesse de falar, situações interessantes. Mas eu sabia tão pouco sobre metodologia que, no final das contas, isso podia ser simplesmente o que eu queria ouvir.

O mais importante a resgatar para mim, no entanto, é essa tortura de falar inglês como uma profissional do inglês. Tudo ajudando a reforçar a visão de que professor não erra nunca, professor sabe tudo sobre gramática. Vocês podem estar pensando: “mas, pelo amor de Deus, essa coisa de terceira pessoa é super básica, não tem como você errar isso!”. Devem estar imaginando que eu não tinha fluência alguma, como assim?

Bem, estão em seu direito de imaginar.

A CDF pródiga ao curso torna…

Filed under: experiências,modelos de vida — sabinemendesmoura @ 01:50
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Foi um grande aprendizado. Quando voltei a meu cursinho descolado, suas máquinas de refrigerante e suas salas com ar condicionado, valorizava ainda mais a experiência que me proporcionava. Já entendia duas coisas muito importantes: a) o que era fluência e b) que eu não era fluente. E estava disposta a me dedicar a um dia voltar ao país da maravilhas e mostrar a todo mundo de que eu era feita. A vingância da fluência pura.

Sobre esse tema da fluência, vale dizer que na época em que fiz meu curso existiam apenas dois tipos de inglês: o americano e o britânico. Eu estudava o primeiro. Também vale a pena dizer que o conceito de ser “fluente” significava falar igual aos americanos ou ingleses. Ponto final. Sem complicações. Ser fluente era alcançar o inatingível. Bota paixão platônica nisso.

Eu terminei meu curso já envolvida com várias outras prioridades. O inglês passou a ser apenas algo que eu usaria, como uma alpinista social, para chegar à fama. Fiz dança, teatro, escrevi peças, fiz improvisos com vídeo e logo acabei prestando vestibular para cinema. O inglês já era um diploma, algo no currículo e eu falava e escrevia razoavelmente bem. Como eu era gordinha e nunca deixei de ser realmente gordinha, tornar-me uma atriz ou bailarina foi se tornando algo para o futuro, para o dia miraculoso em que eu acordaria outra pessoa, e eu fui me contentando e me animando com a perspectiva de ser diretora e roteirista. Professora nem pensar! Que coisa mais sem glamour, mais sem prestígio. Ser professor era para gente sem brilho, gente que não conseguiu ser interessante o suficiente para ter uma platéia de verdade e, por isso, teve de se contentar com a platéia da sala de aula.

Estão percebendo?

Crônicas dos States III – A Batalha Final – Did I speak English at all?

Filed under: aprender,experiências,língua inglesa — sabinemendesmoura @ 01:47
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O idioma? Eu estava tímida e insegura demais para falar! Tudo começou em nossa primeira saída quando me perguntaram como se dizia moeda em inglês. Há que se ressaltar que eu era a-pessoa-que-falava-inglês-na-família e parecia haver uma expectativa de que eu fosse alguém a sanar dúvidas cruéis já que, fora o meu tio, ninguém mais falava o idioma e estavam vivendo ali e se virando. Foi uma lição importante a pergunta da moeda. Eu percebi ali a diferença entre teoria e prática, entre exercícios com lacuna e a vida real. Percebi a diferença entre diálogos inventados e vocabulário útil, que surge da necessidade. Eu percebi tudo isso aos doze anos, quando queria ser atriz e nem pensava em ser professora? Sim, não é exagero. Ficou um sentimento de que uma coisa era o que se aprendia no mundo de faz de contas e outra coisa era saber falar moeda quando alguém precisa usar uma ali na sua frente.

Eu não sabia falar moeda. “Mas como você não sabe? Fez três anos de curso de inglês!” Sim, eu fiz. Eu sei repetir todas as minhas lições da 1 a 10, mas não sei dizer moeda. Fico intimidada ao ver essas pessoas falando comigo em inglês e não consigo ajudar minha tia a pedir salada de ovos no mercado. Uma coisa é saber que ovo é “egg”, outra coisa é pedir salada de ovos no mercado. Minha tia acabou sendo muito mais eficiente apontando a salada até que o sujeito que a atendia entendesse sua firme intenção de compra-la. Eu permanecia muda.

Entendia quase tudo o que era falado a meu redor. Era a única a sorrir quando, em alguma atração dos parques, havia uma música ou fala de alguém que evocasse uma piada. Os demais simplesmente curtiam o visual ou inferiam o que a situação queria dizer. Só não entendia os filmes, por incrível que pareça e os noticiários na TV. Mas apesar de entender, quando entrava em uma loja, a única coisa que conseguia dizer era “Just looking”, só olhando… Ainda que eu estivesse doida para conversar e não estivesse só olhando. Jamais seria capaz de não corresponder às expectativas de fluência dos nativos míticos da terra de Tio Sam.

Treinando para ser Ninja…

Vigilância constante e dedicação total: Eu assistia filmes com legenda em português e tentava identificar as palavras. Copiava em um caderno. Quando ouvia algo que não reconhecia, buscava compreender o som por aproximação e depois buscava os correspondentes mais prováveis em um dicionário. Eu não me importava de ler e reler a lição um milhão de vezes! Afinal de contas, era totalmente compulsiva. Observava os “erros” cometidos nas legendas, comparando-as com o que era dito nos filmes. Estava longe de entender o processo de redução porque passam as frases ditas para caberem em legendas de tamanho mínimo. Tinha especial orgulho dos palavrões e gírias que aprendia. Achava simplesmente o máximo! Era daquelas criaturas chatas que interrompe o filme para dizer: “Não foi isso que ele disse!”. Hoje estou moderadamente mais controlada. Mas às vezes ainda perco a linha.

Foi mais ou menos nessa época que viajei para os Estados Unidos pela primeira (e única) vez.

Certo, fica para a próxima postagem, então…

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