By the Way, havia um inglês no meio do caminho

18/12/2008

Recordações (propriamente ditas) de uma era pré-internet

Qualquer professor que esteja na praça há pelo menos dez ou quinze anos (ou mais) sabe porque esse assunto é relevante! Por isso, postarei um pouco acerca do tema.

Eu comecei a usar a palavra computador (sem estar me referindo às histórias de Natal de meu avô em que ele contava como marcava placas de metal para alimentar máquinas do tamanho de uma sala), durante a faculdade (1997-1999).

Comecei a usar a palavra internet em discursos alarmados em que discutia como o computador (através da anteriormente mencionada net) sugaria a alma (tal qual zumbi comedor de cérebros) de todos aqueles que dele se aproximassem com um objetivo maior do que usar o editor de textos. Minha defesa da tese (batida!) “o computador acaba com a humanidade em nós” era algo conhecido por todos, bem como meu relacionamento íntimo com artefatos pré-históricos como: canetas de variadas cores e formas, cadernos, máquinas de escrever, etc. (Lembrança mais antiga: eu, aos nove anos, sentada diante de uma máquina de escrever, sem conseguir completar uma folha, pois não sabia usá-la. Florestas inteiras morreram antes de que eu desenvolvesse qualquer consciência ecológica!)

É por essas e outras, minha gente, que quando eu vejo, ainda hoje, certos discursos inflamados endemonizando a net eu paro, sorrio e me identifico. Temos uma expressão em inglês: “Been there, done that” (algo como “Já estive lá, já fiz isso”, equivalente ao nosso “Sei bem o que é isso”).

16/12/2008

“Envilecida”: redações escolares servem SIM para alguma coisa!

O ministério da saúde adverte: A estratégia a seguir foi bolada por uma menina insegura de 19 anos que tinha que dar aula para “alunos-que-testam” que, muitas vezes, tinham o dobro de sua idade.

Quando eu estava na oitava série, fiz uma redação sobre os retirantes (baseada em uma foto que a professora apresentou). Tinha acabado de descobrir uma palavra nova em português – envilecida – e queria estreá-la em texto próprio. Pois bem, minha redação teve nota máxima, mas gerou um comentário (um circular de caneta vermelha) quanto à palavra envilecida, que foi corrigida para envelhecida. Certa do equívoco e munida de dicionário, apresento à professora a palavra nova e fico toda boba por conhecer vocabulário que ela desconhecia. Ganho muitos elogios e ganho o mês!!!

Sei, sei, metida a besta eu!

E o que isso tem a ver com provar minha competência dando aulas de inglês? Simples – toda vez que um aluno me testava, perguntando uma palavra que eu não soubesse em inglês, eu travava o seguinte diálogo/batalha de egos:
(eu) Você é fluente em Português?
(aluno-que-testa) Sim, claro!
(eu) Sabe o que quer dizer “envilecida”?
(aluno-que-testa/ 3 variações de resposta) “Você não quer dizer envelhecida?” ou “Sei, sei…quer dizer (aqui ele dizia uma coisa qualquer)” ou “Humm, bem, não sei…”
(eu) Quer dizer “tornada vil”. Portanto, você é fluente em português e nem por isso sabe todas as palavras e eu sou fluente em inglês e nem por isso sei todas as palavras. Mas eu sou fluente em inglês e você não é, por isso, deixa eu te ajudar”.
Xeque-mate.

O nível de crueldade/requinte/avacalhação dependia muito do nível de crueldade/requinte/avacalhação do aluno-que-testa.

Eu sei, gente…Mas foi o que deu pra inventar na época…

O aluno que queria ser rei

Eis que somaram-se aos meus grupos membros de outras empresas, alunos particulares…Para cada um deles eu recebi um papelzinho que era como um “encaminhamento”. O encaminhamento continha os dados dos alunos, endereço e nível (busque o livro de acordo com o nível) e era uma espécie de talismã também! Eu tinha 19 anos -colava aqueles encaminhamentos em uma agenda como se fossem condecorações militares!!! Consegui mais um aluno…Era o máximo!
Até que um dia, numa bela manhã de não lembro quando, encontrei o primeiro aluno “do tipo que testa”. Um aluno do tipo “você tem dezenove anos, como assim está querendo me ensinar alguma coisa?”. Eu senti na pele a tensão – tive ganas de me livrar do encaminhamento dele, quem sabe jogando numa fogueira! – e não consegui dar nenhuma resposta adequada durante nossa primeira aula.
Porém, para toda situação incômoda, logo desenvolvemos uma estratégia…Ainda mais se o prêmio é a permanência no mercado de trabalho!
E eu desenvolvi a estratégia do “envilecida”.
Na próxima, juro que conto.

11/12/2008

Útil versus Fútil: maquinações de uma mente maniqueísta.

Filed under: experiências,modelos de vida — sabinemendesmoura @ 01:54
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Na verdade, o primeiro vídeo que roteirizei e dirigi era justamente sobre um triângulo amoroso entre dois professores e uma aluna. Os professores eram bem caricatos, o estereótipo mais comum do professor de Literatura viajante e poético e a professora de matemática, lógica e fria. Fui escrevendo meus roteiros, participando de produções dos outros. Meu grande sonho passou a ser estudar em Cuba e eu dizia isso a todos. De querer estudar nos Estados Unidos a querer vivenciar o socialismo cubano foi um longo e conflituoso caminho.

Eu só tinha dois problemas com essa história de ser cineasta: a necessidade de ser útil (eu mesma) e a necessidade de fazer filmes que comunicassem alguma coisa útil a alguém. Um professor muito querido, já falecido, e que me deixou ótimas lembranças, dizia que havia muitos filmes na faculdade estilo “meu umbigo fora de foco”. Ou seja, filmes sem pé nem cabeça que só o cara e a mãe do cara que fez vão assistir com orgulho. Eu queria que meus filmes ensinassem alguma coisa, transmitissem alguma mensagem. Achava estranha essa coisa da arte pela arte e até tentei curtir isso e fazer uns vídeos que eram “viagens estéticas”, mas ficava sempre com uma grande sensação de vazio no fim. Eu pensava: o cinema pode ser político, o cinema pode ser instrutivo, o cinema pode ser… E percebo que, desde então, eu já queria ensinar alguma coisa.

Mas sala? Giz? Cadernos e cópias? Nem pensar! Vamos ensinar nos lugares onde realmente se aprendem, ou seja, fora da escola! Nem precisei pensar muito para descobrir que a escola não fazia muita diferença.

Estão percebendo, não é?

CDF alien(ada) versus Galera Cuca Fresca

Filed under: experiências,modelos de vida — sabinemendesmoura @ 01:52
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Gente, eu sei que pode parecer não ter nada a ver com nosso tema, mas eu simplesmente tenho de dizer que conheci pessoas que fumavam maconha com os pais. Enquanto eu me lembrava de minha avó dizendo que na faculdade eu ia encontrar um bando de subversivos que ia mudar a minha cabeça. Achava que maconheiro era sinônimo de marginal, criminoso. Eu estava na faculdade mais politizada da face da terra dentre as públicas, ou pelo menos me diziam isso, e era de uma família quase inteiramente formada por militares. Ouvia falar sobre a ditadura, a falta de liberdade de expressão, a tortura e em casa estava acostumada a ouvir falar de subversivos como o Lamarca e do mal que eles faziam à sociedade. Aliás, essa história virou um filme, no renascimento do cinema brasileiro, que foi estudado e parabenizado como bem produzido e com roteiro digno, quando em casa eu ouvia que essa visão era uma mentira, uma falsificação da realidade.

Olha só, eu não quero fazer apologia a nada. Só estou querendo transmitir um pouco do turbilhão de informações novas e conflitos que a faculdade de cinema representou na minha cabeça. Fui do oito ao oitenta em poucos anos e nada disso era realmente o meu discurso. E o inglês, meu grande amado, minha zona de conforto, a única coisinha que eu podia dizer que já tinha no currículo era execrável. Era a língua do capitalismo, do imperialismo e de tantos outros “ismos” que vagamente sabia que existiam, mas cuja única relação comigo eram as perguntas da área de Humanas na prova do Vestibular. E o fato de que eu tivesse passado e soubesse responder às perguntas e fazer redações sobre as injustiças do mundo não queria dizer que eu estivesse pronta para saber qual era a minha opinião. Eu só sabia fazer provas muito bem!

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